terça-feira, 23 de novembro de 2010

Arte, Política e Religião.

Existe aquele ditado que diz "Gosto não se discute", ou, expandindo um pouco, "Não se discute política / musica / futebol / religião" ou algo assim. Eu concordo em parte. Você não pode convencer alguém a gostar de uma musica ou banda dizendo apenas "porra, essa musica é muito boa, cê devia gostar dela". Não é tão fácil assim. Religião a mesma coisa, não é falando que Deus existe e botando medo ao falar do Inferno que vai me fazer começar a acreditar em Deus. Pode funcionar com alguns, mas estes poucos não possuem uma base forte para sua crença.

Aí está a palavra chave, "base". Não se discute um assunto "subjetivo" (exito ao usar esta palavra) como os citados no início do texto diretamente. Raramente se chegará a um acordo debatendo o assunto diretamente.

As crenças, gostos e preferências não surgem do nada, como, aparentemente, muitos pensam. Todas estas coisas surgem a partir de uma base, base para a crença, base para o gosto, base para a preferência. Não se deve discutir o se, mas sim o porque.

Veja este quadro:

É um quadrado preto com um minúsculo ponto branco. Isso é arte? Independente da sua resposta, farei outra pergunta: "Porque isso é/não é arte?", então, para responder isso, deve questionar-se: "Qual a minha definição de arte?" Arte é tudo que alguém denominado como artista por ao menos um crítico faz? Arte é algo que requer habilidade, ou é apenas algo que transmite uma ideia? Assim que a definição de "arte" for concluída, podemos iniciar um certo debate, já que temos a base. Se o debate for com o intuito de mudar o gosto do oponente, então talvez possamos chegar a algum lugar ao criticar, ao invés do gosto do oponente em si, sua base para ter esse gosto, para aderir a essa definição de arte. Se conseguirmos, então o oponente claramente não possuía uma base forte o suficiente, mas se acontecer o mais provável, do oponente não mudar sua opinião e sua base não fraquejar, ao menos aprenderemos algo com a discussão, aprenderemos que existem outros pontos de vista que não sejam os seus e, com sorte, perderemos essa noção de que "gosto não se discute". Se tem tanta gente discutindo, é porque se discute sim e se mesmo assim a frase continua em efeito, é porque não se soube discutir corretamente.

Religião ou crença é um outro ponto, dessa vez, creio eu, mais debatível, pois aquilo que acreditamos é aquilo que escolhemos acreditar, e nossas escolhas podem estar erradas (se não admite isso então não merece atenção ou credibilidade alguma). Acredito muito no que a ciência diz, pois a ciência não é só um coletivo de descobertas. Para algo ser considerado um "fato" ou uma "teoria", ela deve passar por um rigoroso processo muito extenso e complicado para explicar nesse texto (e também porque eu não conheço de cor), então quando me deparo com algum religioso e quero debater, meu instinto faz-me assumir que sua base para definir o que é ou não verdade - ou ao menos acreditável - é a mesma base que a minha. Logo se inicia um debate que não vai a lugar algum pois meu instinto me fez assumir o, muito provavelmente, incorreto. Logo devo mudar o caminho que o debate toma para algo mais profundo. "O que te faz acreditar?" É a fé? Então começo a atacar o conceito de fé. Foi algum acontecimento na sua vida que considera um milagre? Então começo a tomar um caminho arriscado ao dizer que aquilo poderia muito bem ter outras causas, se não Deus. São os argumentos lógicos ao observar o mundo a nossa volta? Então começo a apresentar contrapontos lógicos e pesá-los contra os argumentos que me apresenta. Se for uma mistura de tudo isso, então a conversa vai longe... Ou um se cansa, ou se ofende, ou se sente ameaçado e diz que "Religião não se discute". (Aí eu fico com raiva, chuto, grito, xingo de covarde e ignorante e acaba ficando por isso mesmo)

Pois acho que já escrevi demais. Pensei em entrar em futebol e política, mas seria apenas a repetição dos dois parágrafos anteriores com algumas palavras modificadas. Espero que tenha compreendido, aprendido algo ou senão ao menos concordado com o que leu.

4 comentários:

  1. Aee! Algo que presta nessa desgraça!

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  2. Na verdade, a filosofia admite que existem crenças que não são firmadas na razão, chamadas "á priori", e mesmo que uma pessoa não saiba aonde está sua "base" para a crença, essa crença não é invalidada por isso e nem a credibilidade da pessoa invalidada por isso . Mas deixa isso pra lá.

    Quando dizemos "qual a minha definição de arte" caímos no relativismo : "o que é arte para mim pode não ser arte para você", e isso não nos leva á lugar algum. Portanto, o conceito "o que é arte" , por ser arte, nunca será definido. Assim como é impossivel dizer que "x" é o melhor músico do planeta. A arte não é uma competição. Não existem "melhores" ou "piores" como um esporte. Existem apenas artistas.

    "e nossas escolhas podem estar erradas (se não admite isso então não merece atenção ou credibilidade alguma)."
    Na verdade não. O fato de eu não admitir que determinada crença talvez esteja errada não me tira nenhum respeito. Dizendo isso beiramos o agnosticiosmo - e muito. Ora, você por acaso pode dizer que - talvez - 1 + 1 = 2 é mentira? Ora, seu eu possuo um argumento lógico que me leva á crença em Deus, e não possuo nenhum argumento que contradiz tal argumento, não posso eu afirmar que, logicamente, eu não duvido de que Deus exista, assim como posso afirmar que logicamente eu Não duvido de que 1 + 1 seja de fato = 2 ? O fato de eu crer que algo não esteja errado não faz de mim um fundamentalista tolo. Na verdade, só podemos fazer isso quando de fatos temos a tal BASE que você diz. E mesmo que a pessoa não tenha base para crer nisso, isso não torna a crença da pessoa ou a crença em si falsa. A Verdade independe de circunstancias. É a tal verdade absoluta.

    "que sua base para definir o que é ou não verdade - ou ao menos acreditável - é a mesma base que a minha."

    Um dos métodos cientificos para se provar uma teoria é de que ela deve ser passível de repetição. Ora, por acaso pode - se repetir a história? Mesmo que algum dia os cientistas criem um segundo big bang, arranjando tudo como estava no momento exato, e depois criando a "fina sintonia do universo", isso não o tornaria uma teoria real para a existencia do universo, pois a história não foi repetida ( o universo não foi re-criado) . Logo, qualquer conclusão sobre tal fato - cientificamente falando - é mera especulação. Contudo, se eu monto um argumento lógico que me remete á acreditar que o universo foi criado por um ser de fora do universo, eu posso afirmar com toda veracidade que de fato foi este ser que o criou, pois não possuo refutações lógicas para desacreditar.

    Escrevi muito ._.

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  3. Sim, crenças "a priori" foi parte do que eu abordei nesse texto (só não me referi pelo nome porque não conhecia), abordei o debate dessas coisas sem questionar a base. Você menciona que mesmo se a pessoa não sabe onde está a base, essa crença não é invalidada. Concordo plenamente, mas estes são casos de arte e gostos, que, pelo relativismo, é unico para cada pessoa, e eu fiz um apelo para que descobríssimos a base para estas crenças a priori. Concordo e até mencionei de que é possível e bem mais provavel não se mudar as crenças a priori, mas o debate nesses casos, seria com o propósito de aprendizagem sobre si mesmo e o outro.

    Quando mencionei o que escolhemos acreditar, me refiro à base para a crença ativa, não a crença a priori, aquela que é selecionada a partir dos argumentos mais fortes, tornando essa base dependente de perguntas como "que tipos de argumentos eu aceito como verdade"? E se a pessoa [i]escolher[/i] um tipo de argumento fraco, como depoimentos pessoas de outras pessoas, então pode-se criticar essa escolha. Não achei seu exemplo com a matemática muito util, porque não entra na area de lógica / filosofia. A lógica não é tão clara quando a matemática, você deve admitir isso, porque o que agente viu na faculdade não é nem metade do que a lógica tem pra oferecer HDUIOSAHDIOAS. Não estou dizendo que sua lógica está errada, estou apenas dizendo que deve manter a mente aberta para contra-argumentos.

    Acho que nesse terceiro parágrafo você se confundiu primeiro disse "O fato de eu não admitir que determinada crença talvez esteja errada não me tira nenhum respeito." parecendo aceitar que uma pessoa se feche em seu mundinho, sem tomar nota de contrapontos, e então essa idéia da lugar a outra, mais aberta:
    "Ora, se eu possuo um argumento lógico que me leva á crença em Deus, [i]e não possuo nenhum argumento que contradiz tal argumento[/i], não posso eu afirmar que, logicamente, eu não duvido de que Deus exista"
    Que demonstra explicitamente uma aceitação de que, mesmo que possam existir argumentos mais fortes, não possui razão para acreditar que existam tais argumentos, por nunca tê-los visto, que é, ironicamente a exata posição que eu tomo no tema de religiosidade.

    Então você menciona a verdade absoluta, que é algo pertinente, mas não da maneira que mencionou. A verdade absoluta é onde todos queremos chegar, não concorda? Ela está lá sim (creio eu... Vai saber, né?), mas a melhor forma de chegar nela, de ter certeza (se ja estive nela) é através de debates, conflitos de idéias.

    A história não se encaixa na ciência por este simples fato de que a história não é replicável (ou talvez seja, mas não quero nem começar a pensar como), porém o big bang, por mais que não seja replicável, é uma teoria aceita pois os métodos usados para chegar nesta conclusão são todos replicáveis, testáveis e falsificáveis, e todos eles apontam na mesma direção.

    Ufa!

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